Fenômeno · Verificado em Peer-Reviewed

Árvore mais velha do mundo: conheça Pando, o clone de 80 mil anos

Fishlake National Forest, Utah · Western North American Naturalist, 2008 · Leitura de 7 minutos

Floresta de álamos dourados de Pando no outono, troncos brancos idênticos se repetindo até o horizonte

No centro do Utah, entre montanhas de solo vermelho, existe uma floresta de álamos com 47 mil troncos brancos. Vista de perto, parece um bosque comum como outro qualquer. Debaixo da terra, porém, todos os troncos nascem da mesma raiz e carregam o mesmo DNA.

O nome desse organismo é Pando. Ele pesa cerca de 6 mil toneladas, cobre 43 hectares e está vivo há pelo menos 80 mil anos, o que faz dele um dos seres vivos mais antigos e mais pesados já documentados na Terra.

O fenômeno está registrado em peer-reviewed desde a década de 1990 e foi confirmado por genética molecular em 2008. Este artigo explica o que é Pando, como a ciência provou que a floresta inteira é um único ser vivo e por que esse gigante está hoje ameaçado.

O que é Pando

Pando (do latim *pandere*, "eu me espalho") é uma colônia clonal de *Populus tremuloides*, o álamo tremedor, localizada na Fishlake National Forest, no condado de Sevier, Utah.

O que parece uma floresta de milhares de árvores individuais é, na verdade, um único organismo que se reproduz por brotação radicular. As raízes subterrâneas enviam brotos verticais que crescem como troncos independentes, mas geneticamente idênticos ao original.

Cada tronco individual vive décadas, floresce, envelhece e morre como qualquer árvore comum. A raiz que os conecta, porém, segue viva e brota novos troncos há dezenas de milhares de anos, o que sustenta o organismo como um todo.

Origem: como a ciência documentou o clone

O primeiro estudo rigoroso sobre os limites de Pando foi conduzido por Burton Barnes, da University of Michigan, nos anos 1970. Barnes usou marcadores morfológicos, como forma da folha e época de brotação, para delimitar a extensão do clone.

Em 1992, Michael Grant, da University of Colorado Boulder, publicou na revista *Nature* uma carta calculando a massa de Pando em cerca de 6 mil toneladas métricas, tornando-o o organismo mais pesado já conhecido na Terra.

A confirmação genética definitiva só veio em 2008, quando Jennifer DeWoody e colegas da Purdue University coletaram 209 amostras de troncos espalhados pelo clone e analisaram marcadores de microssatélites, sequências de DNA usadas para identificar indivíduos.

Linha do tempo da descoberta

  1. Anos 1970Burton Barnes, da University of Michigan, delimita os primeiros contornos do clone usando marcadores morfológicos como forma da folha e padrão de casca.
  2. 1992Michael Grant publica na revista Nature o cálculo da massa de Pando em cerca de 6 mil toneladas, tornando-o o organismo mais pesado documentado no planeta.
  3. 2008Jennifer DeWoody e equipe da Purdue University publicam no Western North American Naturalist a prova genética: 209 amostras confirmam um único genótipo em 43,6 hectares.
  4. 2018Paul Rogers, da Utah State University, publica na PLOS ONE dados mostrando que a regeneração de Pando caiu drasticamente por causa da herbivoria excessiva de cervos.

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O detalhe técnico: brotação clonal e diversidade genética mínima

A reprodução de Pando não depende de sementes nem de polinização. As raízes subterrâneas emitem brotos verticais, chamados ramets, que crescem como troncos independentes, mas compartilham o mesmo sistema radicular e o mesmo genoma original.

Os marcadores de microssatélites usados por DeWoody funcionam como uma impressão digital genética. Ao comparar essas sequências entre as 209 amostras, a equipe encontrou diversidade genética somática mínima, ou seja, praticamente nenhuma diferença de DNA entre os troncos.

Esse resultado descarta a hipótese de que Pando fosse, na verdade, várias árvores geneticamente distintas que cresceram próximas. A floresta inteira nasceu de um único indivíduo fundador, que se multiplicou clonalmente ao longo de dezenas de milhares de anos.

A estimativa de idade vem da taxa de expansão radicular combinada com a cronologia de glaciações. A região só ficou livre de gelo há cerca de 11.700 anos, e o tamanho atual do clone sugere uma idade mínima de 80 mil anos.

O legado: por que Pando importa hoje

Pando não é apenas um recorde de peso e idade. É um ecossistema inteiro: pesquisadores documentaram mais de 68 espécies de plantas associadas ao seu sub-bosque, além de fungos, líquens e invertebrados que dependem da floresta de álamos como habitat.

O clone sobreviveu a glaciações, erupções vulcânicas e milhares de incêndios florestais, porque o álamo tremedor rebrota naturalmente após o fogo. Hoje, porém, ele está em declínio por causa de um fator bem mais simples: cervos-mula comendo os brotos jovens antes que cresçam.

A eliminação histórica de predadores como lobos e pumas na região deixou a população de cervos sem controle natural, e décadas de supressão de incêndios controlados impediram a regeneração que o próprio ecossistema de Pando precisa para se renovar.

Pando também desafia a própria definição biológica de indivíduo. Os 47 mil troncos são geneticamente idênticos e compartilham raízes, mas cada um faz fotossíntese e responde a estresses locais de forma independente, podendo morrer sem que o resto do organismo morra junto.

Perguntas frequentes

Por que Pando é considerado um único organismo, não uma floresta?

Porque todos os 47 mil troncos compartilham o mesmo sistema de raízes e o mesmo DNA, confirmado geneticamente por análise de microssatélites em 209 amostras coletadas por toda a extensão do clone.

Pando está em risco de desaparecer?

Sim. Estudos de Paul Rogers mostram que a regeneração de novos troncos caiu por causa da herbivoria excessiva de cervos-mula, que comem os brotos jovens antes que cresçam o suficiente para sobreviver.

Existem outros organismos clonais parecidos com Pando?

Sim, incluindo um fungo Armillaria ostoyae de 8,8 quilômetros quadrados no Oregon e uma colônia de Posidonia oceanica no Mediterrâneo, estimada em 100 mil anos, ambos também clones de um único indivíduo fundador.

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